Onde a Água Flui, a Igualdade Cresce – Dia Mundial da Água 2026

Onde a Água Flui, a Igualdade Cresce – Dia Mundial da Água 2026

Como Sommelier de Águas, passo meus dias estudando as nuances das Águas. Sua origens, composições minerais, texturas, gostos diversos e a forma como expressa seu Terroir. Analiso pureza, equilíbrio e identidade a cada gole. Não por menos, a relação direta com alimentos, sua aplicabilidade nas cozinhas profissionais, entre diversos outros fatores. Porém, além deste universo sensorial, experimental e científico, existe um lado muito mais importante da minha profissão. Conscientização. Sem este empenho educacional, no qual, sempre busco contribuir para uma mudaça de mentalidade diante deste recurso mais valioso que temos, se resumir apenas a degustar e harmonizar águas, a conta não fecha.

Por isso, gostaria de expor mais uma vez uma realidade que há milênios existe. Muitos de nós sabemos que a água não é vivida de forma igual, porém nem todo mundo está ciente disso. Enquanto a maioria de nós nunca sequer pensou na água que sai da própria torneira, bilhões de pessoas, maioria sendo mulheres judiadas por circusntâncias inadmissíveis, buscam exatamente essa garantia: acesso seguro à água potável, e óbvio, dignidade.

Globalmente, cerca de 2,2 bilhões de pessoas não têm acesso a serviços de água potável gerenciados com segurança, segundo a World Health Organization e a UNICEF. Ainda mais alarmante, mais de 3,5 bilhões de pessoas não possuem saneamento seguro. Mas esses números não relatam toda a história. A escassez de água não é apenas um problema técnico ou ambiental, ela é profundamente financeira e social. Em boa parte do mundo é também uma questão de gênero. Muitas regiões rurais e remotas pelo mundo, especialmente na África Subsaariana e em partes da Ásia, mulheres e meninas são responsáveis por aproximadamente 80% da coleta de água doméstica (UN Women). Isso significa que elas caminham longas distâncias, frequentemente 6km ou mais por dia. Carregam baldes sobre suas cabeças, em torno de 20 litros ou mais por cada viagem. Gastam em média, 5 horas diárias apenas para garantir o consumo de água para aquele mesmo dia. Ressalvo, essa rotina é executada diariamente. Se não, não há sobrevivência. Tempo e empenho que, poderiam ser dedicados à sua própria educação e dos seus filhos, ao cuidado da sua moradia, a uma participação efetiva na vida comunitária, ao seu próprio trabalho e claro, ao empreendedorismo. Ao meu modo de ver, nada mais prazeroso do que assitir uma mulher radiante, com seus olhos brilhando da sua competência se concretizando. Isso é lindo e libertador para todos nós!

Porém, infelizmente, este custo para a humanidade é invisível. É praticamente impossível existir um equilíbrio em um sistema aonde, crianças deixam de frequentar a escola devido à coleta de água ou à falta de saneamento. Aonde mulheres enfrentam riscos de segurança durante longas jornadas até as fontes de água, muitas vezes em péssimo estado. Aonde famílias adoecem por conta desta mesma água contaminada, sobrecarregando mais uma ves as mulheres como cuidadoras. Isso sem aprofundar na violência sofrida diariamente.

Cada gota de água insegura e descuidada carrega consequências, não apenas para a saúde, mas para a igualdade, a dignidade e as oportunidades. Outra dimensão frequentemente ignorada da crise hídrica é a governança. Apesar de serem as principais gestoras da água no cotidiano, as mulheres ainda são sub-representadas nos espaços de decisão e liderança no setor hídrico. Tubulações são projetadas. Políticas são criadas. Investimentos são definidos. Na maioria das ocasiões, sem a participação de quem mais vive essa realidade na prática. Sob o meu olhar de Sommelier de Águas, isso é como criar um “Blend” sem conhecer sua origem; ignorar a fonte principal para gerar um desequilíbrio. Extrair além do que a fonte pode oferecer, se cria uma situação irreversível. Não respeitar a água, causa estragos por infinitas gerações. Não entender a água é abdicar de um legado leal e próspero.

A água não é apenas um produto. Não é apenas uma harmonização. É um recurso compartilhado, um bem comum que conecta ecossistemas, culturas e comunidades. E além do mais, com as mudanças climáticas intensificando secas, enchentes e desastres relacionados à água, a escassez se torna ainda mais complexa. Até 2030, metade da população mundial viverá em áreas com estresse hídrico, e até 2050, praticamente 70% da população mundial se encontrará nesta amarga realidade. A variabilidade climática aumenta a imprevisibilidade da disponibilidade de água. Falhas de infraestrutura ampliam desigualdades entre áreas urbanas e rurais. Para quem já vive em situação de vulnerabilidade, especialmente mulheres e meninas, esses desafios se multiplicam.

Se realmente queremos compreender a água como cidadãos globais, precisamos mudar nossa perspectiva imediatamente. A transformação precisa ser visceral. Uma abordagem baseada em direitos e inclusão significa garantir acesso equitativo à água potável e ao saneamento. Promover mulheres a posições de liderança no setor hídrico, da engenharia à formulação de políticas. Reconhecer mulheres não apenas como coletoras de água, mas como decisoras, inovadoras e guardiãs. É também, importantíssimo, engajar homens e meninos como aliados ativos na transformação social e educá-los a respeitar e cuidar das mulheres. Porque a igualdade, assim como a água, precisa fluir por todas as camadas da sociedade.

No universo das águas premium, muitas vezes atribuímos valor com base na raridade, na origem ou na complexidade mineral. Mas talvez a pergunta mais importante seja: Qual é o valor da água quando ela não existe? Para milhões de mulheres e meninas, a água não é uma experiência sensorial, é um desafio diário que castiga e molda suas vidas. E este valor é incalculável.

Neste Dia Mundial da Água 2026, mais uma vez somos convidados a refletir sobre a relação entre água, mulheres e igualdade. Em minha humilde opinião, isso deveria ser pauta diária e não um tema solitário num calendário diverso. E como Sommelier de Águas, analiso e acredito que nosso papel precisa sempre evoluir e se adaptar…

De degustadores → para educadores.
De especialistas → para defensores.
De observadores → para agentes de transformação.

Porque somente quando a água for acessível, segura e gerida de forma justa, ela poderá expressar seu mais alto valor. Não apenas na taça, na garrafa, na torneira… mas na vida. Assim como a água é a fonte da vida, a mulher carrega em si esta mesma fonte. Reflitam sobre isso. Principalmente os homens.

Uma família desidratada é uma célula na humanidade que não se regenera.” Leonardo Deoti

#ConheçaSuaÁgua

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